ASPERGER, OU O AUTISMO LEVE
Especialistas estimam que uma em cada cem crianças possa ter a síndrome, que atinge mais os meninos. O diagnóstico é difícil, mas quanto mais cedo for feito, melhores as chances de adaptação
Por Riad Younes
– Tenho um filho com síndrome de Asperger. Olhei, espantado: – O que é isso? – Meu filho é autista.
Assim começou uma conversa surpreendente com um médico amigo meu. No início, fiquei desconfortável, sentindo um tipo de pena desse amigo. Poxa, afinal está com um filho problemático, retardado talvez. “Nada disso. Meu filho é muito esperto, só que diferente dos outros, inclusive de seu irmão. É mais sensível que os colegas. Não entende nem suporta barulhos”, me explicou o amigo.
Seu filho foi convidado a deixar a escola em duas ocasiões. Os pais, apesar de médicos, bem orientados, sem problemas financeiros, não conseguiram ajuda. Ele tinha alguns problemas de contato social. Tudo começou com uma dificuldade para dormir, um pouco de agitação. Uma certa falta de controle esfincteriano, apesar da idade. Nada que o impedisse de começar a falar e a andar na época normal. Apesar de parecer muito inteligente, tinha essas dificuldades de se relacionar com seus pares e em fazer amiguinhos. Passava muito tempo “lendo”, vendo figurinhas. Tinha períodos de agitação. Não conseguia se relacionar com os amigos, com os tios, com os pais. “A coisa que mais chamava a atenção era sua incapacidade de olhar nos olhos das pessoas, de encará-las. A criança não conseguia se colocar no lugar da outra pessoa, de interpretar os sinais que se originam do interlocutor. Quando sentava em seu colo, tinha-se a impressão de que ele estava sendo carinhoso com você. Na verdade não era isso. Ele vinha e usava seu colo como cadeira. Não estava interessado se você prestava atenção nele ou não”, explica o pai. Demorou mais de quatro anos até alguém diagnosticar o problema. Um precioso tempo perdido. Quanto mais cedo diagnosticado e a terapia instalada, maiores são as chances de a criança se adaptar ao mundo ao seu redor. O caso do filho de meu amigo não é tão raro assim. Ao contrário. Especialistas estimam que uma em cada cem crianças pode ser autista. Alguns diagnosticaram autismo em pessoas acima de qualquer suspeita, ou quase: Albert Einstein e Isaac Newton. O longa-metragem Rain Man, de 1988, introduziu os espectadores no mundo dos autistas. Nele, o ator Dustin Hoffman interpreta Raymond, um autista redescoberto por seu irmão.
O autismo é uma disfunção complexa do cérebro, bem mais comum em meninos. Interfere na capacidade da criança de se comunicar, de interagir com outras pessoas. As manifestações variam e vão desde distúrbios leves, quase imperceptíveis, até a incapacidade total de contato, como a criança retardada, sem fala. Na Idade Média, acreditava-se que os autistas não tinham alma.
Em 1940, o pediatra austríaco Hans Asperger observou que um grupo especial de autistas se comportava e evoluía de forma diferente. A síndrome foi batizada com seu nome e reconhecida oficialmente como uma disfunção mental somente há dez anos. Pessoas com a síndrome de Asperger fazem parte do grupo mais leve de autistas, com maior grau de funcionalidade. Os cientistas acreditam que exista um distúrbio neurológico na base desse erro de desenvolvimento. Infelizmente, na maior parte dos casos, a causa é desconhecida. As crianças assim afetadas apresentam dificuldade de relacionamento social e do uso da linguagem para se comunicar. Geralmente, os autistas com síndrome de Asperger caracterizam-se por possuir capacidade cognitiva elevada e por ter Q.I. pelo menos normal. A linguagem básica também é normal. Como muitos casos são tão leves que as crianças não são diagnosticadas, familiares e professores acham que elas não passam de pessoas “um pouco diferentes”. Algumas recebem os diagnósticos errôneos de distúrbio de atenção ou de distúrbios emocionais.
Os estudos sugerem que a síndrome de Asperger é comum. Talvez até mais comum do que o autismo clássico. Sua freqüência é tão alta que despertou a atenção de médicos ao redor do mundo. Não é raro encontrá-la também em crianças com tique nervoso, problemas de atenção e até depressão. Os pais de uma criança com autismo devem ficar atentos. A chance de terem outro filho autista é muito grande. O professor Christopher Gillberg, um médico sueco, é considerado atualmente a maior autoridade em síndrome de Asperger do mundo. Ele descreveu e caracterizou as pessoas afetadas. Egocentrismo extremo, interesses limitados, rituais ou rotinas repetitivas, dificuldades de linguagem, uso limitado de gestos e, às vezes, inabilidade motora.
Escrito por GEZP Albert Sabin às 01h10
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